Afetos, emoções e sentimentos são sinônimos?

a couple of swans simbolizing heart sign

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Algumas palavras perdem sua identidade ao entrarem no discurso cotidiano das pessoas. Ao ministrar a disciplina Cognição, Afetividade e Desenvolvimento em um Universidade da capital de São Paulo, percebi que os alunos utilizavam afetos, emoções e sentimentos como se fossem sinônimos. Hoje organizando minha biblioteca ao encontrar alguns textos lembrei-me do fato e pensei que deve haver mais pessoas cometendo os mesmos enganos e aí vamos nós,  falar sobre o assunto.

Afetividade

Afetividade é o conjunto de fenômenos psíquicos que são experimentados, e vivenciados pelos seres humanos. Segundo o educador francês Henri Wallon (1879-1962), que contrariou as posições de Piaget e VyH Wallongotsky ao colocar a afetividade como um dos aspectos centrais do desenvolvimento, ela se expressa por meio da emoção e do sentimento. Portanto, ela é a dimensão que determina a o atitude que tomamos diante das nossas experiências, sejam elas do mundo externo ou interno.

A emoção, para Wallon, é a primeira expressão da afetividade. É o primeiro recurso que o ser humano dispõe para comunicar-se e interagir com o outro. A emoção tem uma ativação orgânica, portanto, não é controlada pela razão. Quando alguém nos agride, ficamos com medo e, revidamos, mesmo sabendo não ser essa a melhor forma de reagir.

Por serem altamente orgânicas,  as emoções constituem a face observável da afetividade. Elas alteram a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular. Apresentam momentos de tensão e de distensão que ajudam a identificá-las.

Um estímulo externo é percebido pelo sujeito (por ex.: latido de cão feroz), esse estímulo percorre a amigdala cerebral, que envia um alerta para o hipotálamo que envia uma mensagem para o sistema endócrino liberar adrenalina e cortisol para ativar o raciocínio, aumentar o batimento cardíaco que eleva o fluxo sanguíneo nos braços e pernas. Mais glicose é liberada gerando mais energia para uma reação, a pupila se dilata para melhorar a visão momentaneamente. Todas essas alterações orgânicas visam a prontidão do indivíduo para lutar ou fugir.

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Acreditava-se que eram em número de seis as emoções básicas, mas uma nova pesquisa feita pelo Instituto de Neurociência e Psicologia da Universidade de Glasgow, na Escócia, publicado em fevereiro de 2014 na Current Biology, reduz para quatro: medo, raiva, alegria e tristeza.

Sentimento

Enquanto as emoções se limitam a quatro os sentimentos perfazem um número infinitamente maior. São sentimentos: amor, ansiedade, carinho, ciúme, compaixão, confiança, culpa, desamor, desconfiança, desprazer, dor, indiferença inveja, nostalgia, ódio, orgulho, prazer, remorso, saudade, solidão, tesão …

O sentimento, apresenta um componente mais cognitivo. Através dos sentimentos  é que traduzimos em palavras as sensações que nos afetam – por exemplo, ao verbalizar a maneira como nos sentimos no momento em que nosso filho deu o primeiro passo.

O sentimento também agrega à emoção um outro componente que é o autocontrole, que permite ao indivíduo dominar, por ex., o medo, para encontrar a melhor solução para lidar com uma situação de perigo.

Conclusão

O reconhecimento da importância da afetividade nos seres humanos contribuiu para a repersonalização do direito civil em 2002.

“Por repersonalização entende-se a tendência contemporânea de ver a família na perspectiva das pessoas que a integram, e não de seus patrimônios, para regulação de seus direitos, que busca extrair e elevar o aspecto humano das relações jurídicas, sobretudo as familiares, e despatrimonializar os institutos de direito civil, com escopo de melhor resguardar a dignidade da pessoa humana.” [1]

Termino esse artigo com as palavras da Dra. Tatiane Gonçalves Miranda Goldhar “A parentalidade socioafetiva é seguramente uma realidade abraçada pelos civilistas mais preocupados com o avanço do direito civil e dos institutos da família, sendo também resultado da classificação do afeto como um princípio e bem jurídico tutelável no ordenamento jurídico, cujo descumprimento pode gerar uma reparação material pelo abandono afetivo”. [2]

Yara Prates

Notas:

[1] http://legalejusto.blogspot.com/search?updated-max=2010-01-30T18%3A22%3A00-03%3A00&max-results=10
[2] Yara Prates in  http://mural.obrasil.me/?p=8553