Uma fábula para pensar a educação inclusiva

Os primeiros grupos humanos compartilhavam seus fazeres, haveres e saberes, até por uma questão de sobrevivência.

Com o tempo, os fazeres, haveres e saberes foram deixando de ser compartilhados e sendo distribuídos de outra maneira. Para uns os fazeres, para outros os haveres, e para outros mais, os saberes.

Um avanço no relógio das eras e nos deparamos com outra organização. Os saberes precisavam ser distribuídos para minimizar os fazeres, aumentar os haveres e criar novos saberes. Foi então criada a escola para dar conta dessa necessidade.

Mais um avanço no tempo. Multidões batiam à porta da escola em busca dos saberes, que diminuiriam seus fazeres e aumentariam seus haveres.

Para atender a demanda, a escola inventou um processo de fabricação: a uma unidade da população seria acrescido um determinado conteúdo, que deveria resultar num determinado produto.

No entanto, apesar do conteúdo e do processo de agregação serem invariáveis, observou-se que,  com algumas unidades da população, não se obtinha liga, não resultava um produto satisfatório.

As unidades da população que não conseguiam agregar saberes, para minimizar fazeres e aumentar seus haveres, foram então enviadas a centros de controle de qualida­de, que as analisavam, testavam e expediam certificados diversos: portador de dislexia, dislalia, disgrafia, DCM, DM, ADH,  carência alimentar….

            Ah! Respiraram aliviados: o processo estava correto, o erro estava na matéria-prima. Criaram-se, então, espaços paralelos, cujos afazeres recuperariam a matéria-prima rejeitada. Multiplica­ram-se os recuperadores, mas as unidades etiquetadas  insistiam em não se recuperar no tempo necessário para voltar à linha de produção do seu lote, gerando a evasão e o fracasso escolar.

Novo avanço no relógio das eras e chegamos ao limiar do século XXI. Os avanços científicos e tecnológicos adquiriram complexidade e renovação numa velocidade nunca vista antes;  o local se articula com o global; o universal com o singular; o velho com o novo, o para hoje e o para o futuro; o espiritual e o material, etc.  A demanda que se faz da escola  não é mais que ela exerça a função de  transmitir os  saberes, que diminuiriam os fazeres e aumentariam os haveres.

Qual é então o papel reservado para a escola no século XXI?

A escola deverá ser  o espaço formal de oferecimento dos conheceres que constituem seres capazes de potencializar saberes, de  gerar novos conheceres, que sejam exímios nos conviveres e  de se dedicar a afazeres.

Para desempenhar esse novo papel, todos sabemos que mudanças são necessárias, as questões que se apresentam e que justificam o presente trabalho são: mudar o quê?  como?  por quê? quem?

O presente trabalho não pretende responder de forma cabal a essas questões, pretende apenas compartilhar as respostas que nos demos e vimos colocando em prática desde 1982. 

O quê mudar? Nossa proposta é iniciar a mudança pela substituição do cenário onde se desenrola o drama do ensinar. Acreditamos que a mudança de cenário provoca a mudança do roteiro e da forma de atuação.

Para responder ao como e ao por quê, propomos substituir o cenário das “‘séries” —   gerado no modelo mecanicista, numa óptica linear e atomizada, onde reinam soberanas as diferentes disciplinas e os diferentes especialistas — pelo cenário dos ciclos, gerado numa óptica globalizadora e integrativa das necessidades do educando em suas diferentes fases de desenvolvimento.

Quem deve mudar?  Essa não é uma empreitada simples, requer do educador disponibilidade interna para mudança,  reflexão e, principalmente, incorporar a noção de que sua principal função é ser um auxílio para o desenvolvimento do educando e não um mero transmissor de informações

8 ideias sobre “Uma fábula para pensar a educação inclusiva

  1. Muito bom! Não entendo como uma fábula tão rica em ensinamentos foi rejeitada. Está de parabéns!

    • Agradeço Maria Celeste suas palavras tão elogiosas. O que me deixa feliz foi ter tido a oportunidade de praticas a educação inclusiva durante 25 anos, apesar dos preconceitos, das perseguições dos dirigentes e das escolas especiais.Mas valeu a pena, me sinto realizada.

  2. Excelente texto! Inteligente narrativa do histórico relativo a “educação inclusiva” estruturada de maneira coesa e coerente. Solicito permissão para usar o texto em formação de professores. Que pena a “douto” não ter tido a percepção que é um texto estruturado baseado na linha de tempo da inclusão no Brasil e não um texto subjetivo!

    • Valeria, ontem assisti um filme e uma frase foi como flecha direto ao meu coração: Para melhorar o país, para torná-lo uma nação, não necessitamos de políticos mas de MAESTROS!
      Por favor, use o texto como, quando e quanto quiser. A maior recompensa para um autor e ter leitores!

  3. Obrigada por compartilhar!! Texto maravilhoso. Hoje a realidade das salas de aula me deixam inquieta! Fico com sua pergunta “Quem deve mudar?” Ou ainda “O que deve mudar?

    • Naíra, não entendi bem o que te inquieta, atualmente na sala de aula. Tenho a te dizer que se vc se inquieta é porque se importa e isso é muito bom.
      A educação deve mudar! A escola deve mudar! A prática pedagógica deve mudar!
      Há uns 50 anos atrás (meio século) minha mãe dizia : Agora as crianças nascem com os olhos abertos! Vou te contar uma coisa: do meu primeiro filho para o segundo há uma diferença de 7 anos, quando eu fui ao pediatra a primeira vez quando ela completou um mês ele me perguntou: É o primeiro filho? Quando foi informado que não, que o primeiro já tinha sete anos, ele respondeu: Então vc já não sabe mais nada, Vou te explicar tudo como é agora!

  4. Excelente texto. É importante que façamos todos os dias uma reflexão sobre nossas práticas e com isso buscar mecanismos e estratégias diferenciadas para fazer sempre o melhor como mediadores e assim crescer como pessoas, proporcionando uma aprendizagem de amor e abrindo novas possibilidades e não focando nas dificuldades. Obrigada por ser tão sensível a questões tão especiais!

    • Márcia, fico feliz em perceber que há muitas pessoas como você sensíveis a verdadeira essência da educação que não é apensas e tão somente transmitir conteúdos mas possibilitar que todos possam desenvolver plenamente suas potencialidades.

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